Marés de Desejo: Um Conto Erótico na Praia


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Marés de Desejo: Um Conto Erótico na Praia

Há algo no verão português que baixa as defesas de toda a gente.

Não é só o calor, mas a combinação do calor com a luz, com o cheiro a sal, com a sensação de que o quotidiano ficou para trás algures na autoestrada. As pessoas chegam à praia e tornam-se versões ligeiramente diferentes de si mesmas. Mais lentas. Mais presentes. Mais dispostas a olhar.

Este conto erótico na praia passa-se numa tarde de agosto no Alentejo Litoral. Numa daquelas praias compridas onde o vento chega do oceano e a areia é fina e quente e a água é fria o suficiente para acordar tudo de uma vez.

É uma história sobre o que acontece quando dois adultos param de fingir que não se estão a ver.

Marés de Desejo

A praia estava quase vazia às cinco da tarde.

O pico do calor tinha afastado a maioria para as esplanadas e os duches frios, e a Inês tinha ficado sozinha com a toalha, o livro que não estava a conseguir ler, e a consciência crescente de que o homem deitado a uns vinte metros à sua esquerda a tinha olhado três vezes nos últimos quarenta minutos.

Ela sabia contar.

Tinha chegado mais cedo, antes dele. Vira-o entrar pela praia com passo tranquilo, sem o habitual telemóvel na mão e isso já a tinha feito reparar. Corpo de quem trabalha fisicamente ou de quem trata do corpo com a mesma seriedade com que trata do resto. Quarenta e poucos anos, talvez. Sozinho. Sem aliança.

Ela tinha voltado ao livro.

E ele tinha olhado.

Às cinco e meia, Inês levantou-se para ir ao mar.

A água estava fria (sempre estava, mesmo em agosto, naquela costa) e ela entrou devagar, deixando o corpo habituar-se centímetro a centímetro. Quando a água chegou à cintura, ficou parada um momento, olhos fechados, o sol ainda quente nas costas, o frio na frente.

Ouviu alguém entrar na água perto dela.

Não abriu os olhos imediatamente. Esperou. O som dos passos na areia molhada, depois o som diferente da água a ser deslocada, depois o silêncio relativo de alguém que também parou.

Quando abriu os olhos ele estava a uns três metros, a olhar para o horizonte.

“Está fria,” disse ela. Não era uma pergunta.

“Sempre está.” Virou-se para ela. Olhos escuros, expressão calma. “Mas habitua-se.”

Há conversas que começam sobre uma coisa e são imediatamente sobre outra. Toda a gente já teve uma assim. Aquela em que as palavras são completamente banais e o resto (o tom, a distância entre os corpos, o ritmo das frases) está a dizer algo completamente diferente.

Esta era uma dessas conversas.

Chamava-se André. Estava ali por três dias, num alojamento a dois quilómetros da praia. Trabalhava em Lisboa, vinha ao Alentejo uma vez por verão sozinho porque precisava de sair da cidade sem ter de falar com ninguém.

“E está a falar comigo,” disse Inês.

“Está a falar comigo também.”

Ela não tinha resposta para isso. Ou tinha, mas não era uma resposta que se desse em pé na água fria com o sol a descer.

Marés de Desejo: Um Conto Erótico na Praia

Ficaram na água mais vinte minutos. A conversa foi e veio… sobre Lisboa, sobre o Alentejo, sobre o silêncio que as pessoas da cidade perseguem o verão inteiro sem nunca o encontrar de verdade. Ele tinha uma forma de falar pausada que ela foi percebendo que era genuína, não calculada. Não estava a tentar impressionar. Estava simplesmente ali.

Isso era, por alguma razão, muito mais perturbador do que se estivesse a tentar.

Saíram da água juntos sem combinar.

Na areia, ele apanhou a toalha e secou o rosto. Ela fez o mesmo, consciente de uma atenção que não era desconfortável mas que era inegável. Quando baixou a toalha ele estava a olhar para ela com aquela expressão calma que tinha desde o início… não faminta, não ansiosa. Apenas… presente.

“Vou buscar uma cerveja àquela barraca,” disse ele. “Quer uma?”

Ela disse que sim.

Beberam sentados na areia, ombro a ombro, enquanto o sol começava a aproximar-se do horizonte. A praia esvaziou ainda mais. O vento ficou mais fresco. Nenhum dos dois fez menção de se levantar.

A conversa tinha abrandado… não de uma forma constrangedora, mas com a qualidade de silêncio que existe entre pessoas que já passaram o ponto onde precisam de preencher o ar com palavras. Inês reparou que a sua mão estava a uns centímetros da dele na areia. Não tinha chegado ali intencionalmente. Ou tinha, e não tinha querido admitir.

Ele olhou para as mãos.

Depois olhou para ela.

“Posso perguntar uma coisa directa?”

“Pode,” disse ela.

“Está aqui sozinha por opção ou por circunstância?”

Era uma boa pergunta. Ela pensou nela a sério. “Por opção,” disse por fim. “Desta vez, por opção.”

Ele assentiu devagar, como se isso fizesse sentido de uma forma que ela ainda não tinha articulado completamente para si mesma. Depois a mão dele moveu-se os centímetros necessários e os dedos tocaram nos dela (não agarraram, só tocaram) e ela virou a palma para cima.

Há formas de dizer sim que não usam palavras. A maioria é mais clara do que qualquer palavra.

O alojamento dele era uma casa pequena em calcário branco, afastada da estrada, com um quintal que dava para o pomar. Chegaram lá com a luz do fim do dia ainda presente com aquela luz dourada e oblíqua do verão alentejano que faz tudo parecer mais antigo e mais urgente ao mesmo tempo.

Ele abriu a porta e ficou de lado para ela entrar.

Dentro estava fresco e cheirava a madeira velha e a alguma planta que ela não soube identificar. A cozinha era simples. Uma mesa com dois copos. Uma janela aberta para o pomar.

Ela pousou a mala na cadeira mais próxima e virou-se para ele.

Não havia nada a decidir já. A decisão tinha sido tomada na areia, talvez antes… talvez quando ela tinha ficado na praia enquanto toda a gente saía, talvez quando ele tinha entrado sem o telemóvel na mão. Os detalhes pequenos que precedem as coisas grandes.

Ele cruzou a cozinha devagar e parou à sua frente. Perto o suficiente para ela sentir o calor dele depois das horas ao sol. A mão dele tocou no seu rosto (a mesma qualidade de toque que tinha usado na areia, presente sem ser possessivo) e ela fechou os olhos um segundo antes de levantar o rosto para ele.

O beijo foi lento de uma forma que ela não esperava.

Não havia pressa nele. Era como se ele tivesse tomado a decisão de estar completamente naquele momento e de mais nenhum, e essa qualidade de atenção era a coisa mais erótica que ela tinha sentido em muito tempo. A mão dele desceu do rosto para o pescoço, depois para os ombros, e ela sentiu o calor da pele dele (ainda quente do sol) contra o fresco da casa.

Foram para o quarto sem falar.

A luz entrava pelas persianas meio fechadas em riscas de dourado no chão de tijoleira. A cama era larga, com lençóis brancos que cheiravam a lavanda.

Ele sentou-se na borda da cama e puxou-a para si devagar, as mãos na cintura dela, sem urgência. Ficou a olhar para ela um segundo (aquela expressão calma que ela já conhecia) antes de começar a desatar o laço do biquíni nas costas. O tecido caiu. Ele não desviou o olhar.

“Estás bem?” perguntou, em voz baixa.

“Muito bem,” disse ela.

O que se seguiu teve a qualidade de algo que não era novidade mas que parecia descoberta na mesma.

Ele deitou-a na cama e começou pelo pescoço com beijos lentos que desceram pela clavícula, pelo peito, pela barriga. Sem pressa. Como se tivesse todo o tempo do mundo e soubesse exactamente isso. Ela ficou com as mãos no cabelo dele, deixando-o fazer o que queria, sentindo a boca dele a aprender o mapa do corpo dela como quem lê com atenção.

Quando a língua chegou à parte interior da coxa ela prendeu a respiração.

Sabia o que estava a fazer. Esse era o problema (o bom problema) com homens que estão realmente presentes: sabem ouvir o que o corpo responde e ajustam-se sem que seja necessário dizer nada.

Ela abriu as pernas e ele tomou o tempo que quis. Quando o orgasmo chegou, foi uma onda longa, construída devagar, sem o sobressalto habitual do tipo que deixa o corpo completamente solto no fim.

Ele subiu pelo corpo dela até ficar de rosto para rosto. Ela sentiu o peso dele sobre si, o calor da pele, a evidência inequívoca do que queria.

“Tenho preservativo na carteira,” disse ele.

“Vai buscá-lo.”

Quando ele voltou ela tinha-se virado de barriga para baixo, apoiada nos cotovelos. Ele ajoelhou-se atrás dela na cama e ela sentiu as mãos dele nas ancas (firmes, não hesitantes) e depois a entrada lenta que a fez enterrar o rosto na almofada um segundo.

Começaram devagar. O ritmo foi crescendo naturalmente, sem que nenhum dos dois precisasse de o negociar. Ela levantou as ancas para ir ao encontro dele e ouviu-o soltar um som grave que a excitou de uma forma imediata e directa.

Mudaram de posição por iniciativa dela, virou-se e puxou-o para cima de si, querendo ver o rosto dele. Ele segurou-lhe as mãos acima da cabeça, não com força, mas com a firmeza suficiente para que ela soubesse que estava ali, completamente ali, e ela enrolou as pernas à volta dele e deixou de pensar em qualquer outra coisa.

O segundo orgasmo foi diferente do primeiro. Mais intenso, mais rápido, construído pela fricção e pelo peso dele e pelo som da respiração de ambos a ficar mais curta. Ele seguiu-a de perto, um momento tenso, sustentado, e depois o abandono completo que a fez apertar as mãos nas costas dele.

Ficaram quietos durante algum tempo.

A janela estava entreaberta e o som do pomar chegava com o vento fresco da noite que começava. Ela estava deitada com a cabeça no peito dele, a ouvir a respiração a normalizar. Ele tinha uma mão no cabelo dela, sem fazer nada com ela, apenas pousada ali.

“Lisboa fica para amanhã,” disse ele, sem se mover.

Ela concordou. Lisboa ficava para amanhã.

De manhã cedo, antes de ele acordar, ela fez café na cozinha pequena e foi para o quintal. O pomar estava coberto de orvalho. Algures no Alentejo um galo cantava. O céu tinha aquela qualidade azul pálido que só existe antes das oito da manhã no verão.

Ele apareceu na porta uns minutos depois, de cabelo em desalinho, com aquele mesmo passo tranquilo. Ficou de pé no limiar a olhar para ela sem dizer nada durante um segundo.

“Há mais chávenas,” disse ela.

Ele entrou e fez café.

Ficaram no quintal até o sol subir o suficiente para o orvalho desaparecer. Depois ela pegou na mala, ele foi com ela até ao carro, e despediram-se com um beijo breve que não tinha nada de final nele.

Ela foi pela estrada de terra para a nacional. No espelho retrovisor, a casa de calcário branco ficou pequena e depois desapareceu.

Na praia, naquele dia, ficou mais tempo do que havia planeado.

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Maria Khalifa

Amante de tudo o que envolve desejo, prazer e intensidade. Escrevo com fogo e sem pudores, explorando fantasias quentes e experiências que marcam a pele e a memória.